
O modelo EH216-S operado remotamente durante demonstração em Quadra (SP). Foto: Gohobby
Os bastidores do voo histórico da Gohobby e os avanços da Embraer
A mobilidade aérea urbana deixou de ser uma promessa de ficção científica para se transformar em realidade nos céus brasileiros. O Brasil consolidou sua posição como o terceiro maior mercado de eVTOLs (aeronaves elétricas de pouso e decolagem vertical) do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China.
Para os leitores do Portal Campo de Marte, essa revolução é ainda mais próxima: a capital paulista se prepara para ser um dos principais polos de operação dessas aeronaves, com a infraestrutura aeroportuária da cidade, incluindo grandes aeródromos, frequentemente citada por analistas como cenário potencial para a futura malha de vertiportos locais, capaz de conectar eixos estratégicos da cidade a centros financeiros e grandes aeroportos.
Com tantos anúncios e siglas técnicas, o cenário pode parecer confuso. Para entender exatamente onde estamos nessa corrida tecnológica, o Portal Campo de Marte detalha os marcos práticos que estão definindo o futuro do setor.
O Marco da Gohobby: O Primeiro Voo do EH216-S no Brasil
O avanço mais marcante na prática aconteceu com a obtenção do CAVE (Certificado de Autorização de Voo Experimental) emitido pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil). Com a autorização em mãos, a Gohobby organizou um evento histórico no Aeroquadra, na cidade de Quadra (a 80 km de São Paulo), para realizar os primeiros voos de teste do modelo EH216-S, desenvolvido pela gigante EHang.
Seguindo as diretrizes de segurança da ANAC, foram realizados dois voos na mesma manhã, ambos sem passageiros:
- Primeiro Voo: Teve duração de 6 minutos, cobrindo uma distância de 1 quilômetro e 700 metros.
- Segundo Voo: Durou 3 minutos e 20 segundos, com um percurso de 700 metros.
O evento marcou o pioneirismo de profissionais brasileiros no setor: Adriano Buzaid tornou-se o primeiro brasileiro a pilotar um eVTOL no país, enquanto o Comandante Jeovan Alencar foi o primeiro a operar remotamente esse tipo de vetor.
Raio-X Técnico do EH216-S
- Capacidade e Carga: Suporta até duas pessoas, com carga útil total de 220 kg.
- Autonomia: Cerca de 30 km de alcance.
- Propulsão: Opera com 16 motores elétricos alimentados por 12 baterias independentes.
- Operação: O piloto não voa embarcado. A aeronave é controlada e monitorada automaticamente a partir do solo por meio do sistema inteligente de comando e controle da EHang.
A Gohobby e a EHang agora planejam colaborar estreitamente com a ANAC e com o DECEA (Departamento de Controle do Espaço Aéreo) para estruturar soluções de Mobilidade Aérea Urbana (UAM) que sejam seguras e acessíveis.
A linha do tempo da inovação nacional: Do hidrogênio à Embraer
Além do marco da Gohobby, a indústria nacional vem se movimentando rapidamente em outras frentes de engenharia:
Dezembro de 2024: O Pioneirismo Tripulado Nacional
A Ave Technology, sediada em Caçapava (SP), alcançou um marco histórico de engenharia ao realizar o primeiro voo de eVTOL tripulado do Brasil. Diferente dos modelos puramente elétricos a bateria, o protótipo da Ave destacou-se por utilizar propulsão alimentada por hidrogênio verde, garantindo o pioneirismo nacional em testes com piloto a bordo nesta categoria.
Dezembro de 2025: O Gigante da Embraer Ganha os Céus
A Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer, realizou o voo inaugural de seu protótipo em escala real na unidade de Gavião Peixoto (SP). Conforme registrado oficialmente em vídeo pela companhia, o veículo realizou com sucesso o seu primeiro voo pairado (hover flight). Essa etapa foi conduzida de forma não tripulada, focando na validação dos softwares de controle e sistemas elétricos.
Agosto de 2026: O Voo Histórico de Transição da Eve
Recentemente, a Eve deu o passo técnico mais complexo de sua jornada. Em um teste remoto que durou 3 minutos e 9 segundos, o protótipo realizou com sucesso a chamada fase de transição (lift-and-cruise). A aeronave utilizou seus oito rotores verticais para decolar, acionou a hélice propulsora traseira (pusher) para ganhar velocidade e passou a voar como um avião convencional sustentado pelas asas, atingindo 27 metros de altura e picos de 55 km/h.
O que esperar do modelo comercial para 2028
Embora os testes de desenvolvimento da Eve aconteçam de forma remota por segurança, o modelo comercial final — projetado para entrar em serviço em 2028 — será obrigatoriamente tripulado por um piloto em seus anos iniciais.
O modelo da Embraer terá capacidade para 1 piloto e 4 passageiros, com autonomia de até 100 km, foco em baixíssima emissão de ruído e mais de 2.800 intenções de compra globais. A fabricação em série já está sendo estruturada em Taubaté (SP).
O Brasil prova, com dados e voos práticos, que não é apenas um mercado consumidor para a Mobilidade Aérea Avançada (AAM), mas um exportador de tecnologia e inovação de ponta. Os céus de São Paulo nunca estiveram tão perto do futuro.
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